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Quando Vier O Que É Perfeito

Por Pr. Zwinglio Rodrigues

“O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque em parte conhecemos, e em parte profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado“ (1Co13:8-10).

A referência acima é um dos “trunfos” dos teólogos (dentre esses estão os calvinistas) que defendem a cessação de alguns dons espirituais tais como as línguas estranhas, a interpretação destas, a profecia e, possivelmente as curas. Os estudiosos que advogam tal teoria são denominados de cessacionistas.

Em sua exegese de 1 Coríntios 13:8-10 os intérpretes cessacionistas dizem o seguinte:

1- Há um tempo determinado para a manifestação das profecias, das línguas e da ciência quanto dons espirituais;
2- Dizem eles que este tempo pré-fixado está relacionado com a manifestação daquilo que o apóstolo Paulo chama de “perfeito”;
3- Em sua elaborada interpretação, os cessacionistas concluíram que “o que é perfeito”, que haveria de se manifestar, é o encerramento do Cânon.

Sobre as duas primeiras conclusões os cessacionistas teologaram acertadamente. Mas, quanto ao terceiro argumento, o mesmo não pode ser dito. Assim sendo, qual seria então a interpretação correta? O que Paulo quis dizer com a frase “quando vier o que é perfeito”? Para quem está voltado o olhar apostólico? Passemos a examinar esss questões.

1-“Quando, porém, vier o que é perfeito”

Para que identifiquemos quem é este perfeito que está por vir, precisamos da contextualidade da frase. Mais precisamente, devemos recorrer ao versículo 12 do mesmo capítulo que diz: “Porque agora vemos como em espelho obscuramente, então (ênfase minha) veremos face a face…” A palavra em negrito está indicando um tempo por vir onde alguém terá a sua face desvelada para que seja vista. Esse desvelamento é daquilo que é perfeito. Desta maneira, o que é perfeito tem um rosto, um aspecto facial a mostrar segundo o raciocínio paulino.

Partindo para uma hermenêutica saudável, devemos, na interpretação da expressão “veremos face a face”, recorrer às passagens paralelas. Há precedentes desta expressão nas Escrituras? Se sim, a que, ou a quem ela se refere? Em Gênesis 32:20 Jacó diz que viu Deus face a face; em Juízes 6:22, Gideão se expressou dizendo “ai de mim, Senhor Deus, pois vi o Anjo do Senhor face a face” (ver ainda Ex 20:35, 33:11; Dt 5:4, 34:10; 1Jo 3:2). Veja que há paralelos sim e que eles tratam de quem (Deus) e não do que (Cânon).

Disto, concluímos que Paulo se refere à Deus na Pessoa de Jesus Cristo (a este poderemos ver a face pois ele tomou a forma humana) como aquele perfeito que em sua parousia a de se mostrar como ele é (1Jo 3:2). Observando a regra de interpretação dos reformadores chamada, analogia da fé, [a Bíblia, sua própria intérprete] temos, neste caso, a certeza de que o que fará cessar a usualidade das línguas, da profecia, das curas, é a segunda vinda de Jesus Cristo (1Coríntios 1:7).

2- “Agora, o meu conhecimento é limitado; então, conhecerei como sou conhecido” (TEB)

Esta parte b do verso 12 também é esclarecedora. Paulo fala de três estágios de conhecimento. No primeiro, ele trata de uma realidade peculiar a ele e a todos nós: o nosso saber não abarca tudo que se têm a conhecer. Por isso é limitado. Antes de falarmos do segundo estágio, tratemos do terceiro. Neste estágio, ele se contrapõe à idéia do primeiro. Ou seja, ele faz-nos entender que é conhecido de maneira ilimitada. Por quem o apóstolo é conhecido ilimitadamente? Pelo Cânon (pergunto isso lembrando-me que a Bíblia não existe para conhecer a, mas para dar o conhecimento de)? Não pode ser porque ele usa o verbo ser no tempo presente do indicativo (assim está na ARA, TEB, NVI, ARC, EC) e o Cânon da Bíblia só fôra fixado no século IV. Assim sendo, Paulo está fazendo uma referência óbvia a Deus que o conhece plenamente.

Estabelecido o entendimento dos estágios de conhecimento 1° e 3°, entendamos agora o 2° estágio. Paulo parece dizer-nos que haverá um momento quando o seu conhecimento deixará de ser impreciso como é o do Senhor, “pois não conterá nenhuma falsa impressão e não será limitado ao que pode ser percebido nesta era”[1].

É evidente que o conhecimento ao qual o apóstolo tem certeza que alcançará não é abrangente como o que possui o Senhor Jesus Cristo visto ser Ele dotado de onisciência, um atributo incomunicável. Mas, o apóstolo esperava vivenciar uma situação onde viria a ter um conhecimento livre de equívocos, pleno e perfeito A questão é: quando e onde ele esperava passar a ter este conhecimento?

Apenas o versículo 10, neste contexto, é capaz de oferecer-nos a resposta: quando vier o que é perfeito. Para Paulo, quando viesse o que era perfeito, quando da parousia, momento de estar no céu e de ver o seu Senhor face a face, é que o seu conhecimento tomaria a dimensão por ele imaginada. Sendo assim, a cessação dos dons espirituais alistados no versículo 8 só se dará quando do segundo advento do Senhor Jesus.

3- O dom de conhecimento e outros dons espirituais na história da Igreja

Acreditar que o apóstolo Paulo reduz a perenidade dos dons de profecia e línguas até a formação do Cânon, é admitir que até o dom de ciência (1Co 13:8), ou de conhecimento, cessaria quando aquele fosse formado. Devemos pensar assim porque o dom de palavra de conhecimento está arrolado juntamente com a profecia e com as línguas.

Mas, como conciliar o desaparecimento do dom de ciência – instrumento que acompanha os mestres da Igreja –, por exemplo, com a habilidade de mestre que está plenamente ativa em John MacArthur, Jr., entre outros, sujeito adepto da teologia cessacionista? A visibilidade de MacArthur como mestre da Igreja não está associada à presença do dom de palavra de conhecimento em seu ministério? Não é ele um homem dados à pesquisa, à apreciação intelectual e à inquirição espiritual com vistas à conhecer e dar a conhecer as Escrituras? Eu não acredito que esse mestre ensina à Igreja a partir de um academicismo técnico, intelectualista e formal. A minha crença é que nele atua o dom de palavra de conhecimento que, juntamente com as línguas e a profecia, ainda estão disponíveis aos crentes para o serviço do Senhor.

Ademais, no Didaquê (II século)[2], em Justino Mártir (cerca de 100-165 d.C.), em Orígenes (século III), em Hilário de Poitiers (século IV), em Agostinho de Hipona (final do IV e começo de V século), até em Lutero, chegando aos nosso dias, pode-se encontrar informações sobre o uso dos dons espirituais elencados em 1 Coríntio 13:8-10.

Concluindo, apesar de alguns nomes de peso da teologia protestante-evangélica acreditarem que 1 Coríntios 13:8-10 ratifica a teoria cessacionista, o fato é que há uma grande equívoco interpretativo por parte deles. A abstenção de conteúdos dogmáticos tradicionais e de um denominacionalismo rígido, poderá facultar , a quem quiser, a possibilidade de enxergar o texto bíblico citado como uma referência que se ocupa de mostrar a superioridade do amor sobre os dons, a atualidade destes últimos (ciência, línguas e profecia / línguas, profecia e ciência) e a bendita esperança escatológica chamada de parousia.

Notas e Referências Bibliográficas:

[1] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 875.
[2] Um manual para instruções básicas usado pela comunidade cristã primitiva.
[3] BANISTER, Doug. A Igreja da Palavra e do Poder. São Paulo: Vida, 2000, p. 231-234

Abreviaturas:

ARA – Almeida Revista e Atualizada
NVI – Nova Versão Internacional
ARC – Almeida Revista e Corrigida
EC – Edição Contemporânea
TEB – Tradução Ecumênica da Bíblia

CategoriasHermenêutica, Teologia
  1. gideoni oliveira saraiva
    26/03/2009 às 12:54 pm | #1

    estudos escatologico

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