2 Tessalonicenses 2:1-3: Uma Pedra No Sapato (?)
Por Pr. Zwinglio Rodrigues
Neste final de semana passado [observe a data de postagem desse artigo], ocupei-me em observar mais de perto como é que os pré-tribulacionistas articulam-se com 2 Tessalonicenses 2:1-3. Esta referência está intimamente ligada à doutrina da Segunda Vinda de Jesus Cristo, e tratar dessa temática sem fazer uma citação direta e exegética dessa passagem, pode fazer qualquer construção teórica acerca da parousia um edifício de estrutura composta de cimento, pedras, areias apropriadas e areia da praia.
Em um outro texto, tentei apresentar, e penso que fiz isso, uma exegese da referida passagem. Por conta disso não farei isso aqui. Até porque, esse texto deveria ser uma apresentação da exegese feita pelos pré-tribulacionistas e não uma feita por um pós-tribulacionista. Mas, infelizmente, eu não encontrei, em todo material observado por mim, não apenas uma não preocupação exegética, como também encontrei um total “desprezo” para com tal Escritura, pois ela, na maioria esmagadora dos textos analisados, nem é citada.
Eu tirei algumas conclusões sobre a omissão de 2 Ts 2:1-3 nesses textos. No final desse artigo, eu irei expor as minhas conclusões.
A primeira obra que quero destacar é o livro de Henry Clarence Thiessen, Palestras em Teologia Sistemática. Ele apresenta-se como um pré-tribulacionista quando diz: “Cremos que a igreja como tal não passará pela Tribulação” (p. 343).
No capítulo XXXIX, que inicia o assunto, A Segunda Vinda de Cristo, Thiessen cita cento e cinqüenta passagens bíblicas [1], e entre elas, de passagem, ele cita as duas epístolas escritas aos tessalonicenses apenas para dizer que juntamente com Apocalipse estas duas epístolas ocupam-se de tratar, praticamente, só da Segunda Vinda ( p. 317).
Em um outro momento na página 321, Thiessen cita o capítulo dois (vv 3-12), mas nunca ocupando-se em tratar dos versículos 1-3 e suas implicações em relação à Segunda Vinda e o arrebatamento da Igreja.
Na página 322, o autor cita 2Ts 2:1 apenas para oferecer mais um fundamento escriturístico para defender a teoria pré-tribulacionista de duas fases da Segunda Vinda de Cristo. Com aquela passagem, entre outras, ele busca tratar de uma vinda no ar, lugar onde “algumas coisas acontecerão” (idem). O que interessa a Thiessen nesse momento ao usar o verso 1 é a expressão “nossa reunião com ele”.
No capítulo XL, onde ele ainda trata da Segunda Vinda, o autor cita, aproximadamente, cento e trinta e duas referências bíblicas. Na página 329, encontramos uma citação ao capítulo 2, mas, mais uma vez, não complementado pelos versos 1-3. Thiessen se vale dos versículos 6-8 para tratar daquilo que há de remover “o que detém” o anticristo.
No capítulo seguinte (XLI), ele ainda preocupa-se com a Segunda Vinda e cita cento e noventa e quatro texto bíblicos. Na página 331, encontramos 2Ts 2:8, na página 332, idem, na 335 os versos 1-12 e depois 9-12, na 336 o versículo 9 e, por fim, na 337 os versos 9-11. Em todo esse capítulo, mais uma vez, Thiessen não cita, especificamente, e nem disseca o que claramente diz os versos 1-3.
No capítulo XLIII, o assunto é a “Hora de Sua Vinda”. Thiessen nesse capítulo, passa a defender a teoria pré-tribulacionista com alguns detalhes. Ele faz menção a noventa e oito textos bíblicos e, em nenhum momento, encontramos referências à 2Ts 2:1-3. Mas porque será isso? Não é esta passagem uma Escritura que aborda a hora da Segunda Vinda de cristo?
Somando as referências canônicas usadas por Thiessen, para tratar da Segunda Vinda do Senhor, nós temos ao todo, aproximadamente, quinhentas e setenta e quatro e, entre elas, não figura, em momento algum, 2Ts 2:1-3.
A segunda literatura que analisei foi a de Myer Pearlman, Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. Nas páginas 246-249, ele dedica-se a teologar sobre a Segunda Vinda de Cristo. Ao todo, encontrei em seu livro, aproximadamente, oitenta passagens das Escrituras e apenas por duas vezes ele faz menção ao capítulo dois da segunda epístola aos tessalonicenses.
Na primeira, na página 247, Pearlman cita 2Ts 2:3 apenas para dizer que “ainda virá outro anticristo final.” Nessa mesma página ele apenas cita os versículo 9-10.
Pearlman é pré-tribulacionista em sua convicções. Ele diz: “Após o arrebatamento, segue-se um período de terrível tribulação…” (p. 247).
Enfim, no universo de oitenta referências usadas para tratar da Segunda Vinda de Cristo, o autor em momento algum cita 2Ts 2:1-3, de passagem, ou como um objeto de análise. Será que essa passagem nada tem a dizer sobre o Segundo Advento de Jesus Cristo?
O terceiro livro que estudei foi Teologia Sistemática, editado por Stanley M. Horton. No capítulo dezoito, escrito por ele mesmo, o assunto é a Doutrina das Últimas Coisas. Partindo do ponto onde ele começa a discutir sobre “Dois Aspectos Segunda Vinda de Cristo” (p. 632) até o assunto “O Anticristo” (p. 638), eu fiz a contagem de cinqüenta e seis referências da Bíblia.
Quando ele trata da parousia como acontecendo em dois momentos, ele cita vinte e nove passagens, aproximadamente, e em momento algum ele refere-se a 2 Tessalonicenses 2:1-3. Diante disso, me pergunto: do que é que trata mesmo 2 Tessalonicenses 2:1-3? Estou com dúvidas seríssimas!
Ao falar da Grande Tribulação (p. 635-636), Horton cita quatro passagens e aponta também para os capítulos 6 a 18 de Apocalipse (esta referência contei como sendo uma apenas). Novamente não encontramos nenhuma menção a 2Ts 2:1-3. O arrebatamento (v 1), o anticristo (v 3) não têm nenhuma relação com a Grande Tribulação?
Já na parte que trata do Anticristo (p. 636-637), o autor brinda-nos com a citação direta de 2 Ts 2:1-3. Ele diz:
“O apóstolo Paulo tinha de lidar com falsos mestres que diziam que o Dia do Senhor já tinha chegado (2 Ts 2:2 – NVI). Os tessalonicenses tornaram-se inquietos e alarmados porque esses mestres, segundo parece, negavam a volta literal do Senhor e “nossa reunião com ele” no arrebatamento (2:1). Obviamente, já não se encorajavam uns aos outros da maneira que Paulo lhes ordenara ( 1Ts 4:18; 5:11). Por isso, Paulo explicou que aquele dia não viria “sem que antes venha a apostasia e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição” (2 Ts 2:3). Isto é: essa apostasia e a revelação do Anticristo seriam as primeiras coisas a acontecerem no Dia do Senhor. Assim não aconteceria enquanto “o mistério da injustiça” estivesse refreado (2 Ts 2:7). Posto que tais coisas ainda não tinham acontecido, o Dia do Senhor ainda não era chegado, e ainda podiam eles encorajar-se uns aos outros com a esperança certa de serem arrebatadas para encontrar-se com o Senhor nos ares” (p. 636).
Como foi possível notar, mesmo fazendo uso de 2Ts 2:1-3, o escritor não se ocupa em trabalhar detidamente o assunto central dessa passagem: o tempo do arrebatamento da Igreja com os seus sinais (primeiro a apostasia e depois o aparecimento do anticristo. Este último acontecimento se dará somente já na Grande Tribulação). Se nessa abordagem escatológica que visa tratar especificamente do “abominável da desolação”, não é o lugar de se gastar tempo com uma exegese sobre o arrebatamento, pelo menos ele deveria ter feito isso no tópico “Dois Aspectos da Segunda Vinda de Cristo”, lugar onde cairia bem a presença de 2 Ts 2:1-3. Mas… Assim sendo, minha “queixa” continua sendo válida nesse caso, mesmo Horton lembrando-se de citar tais versículos.
Depois dessas seis citações, o autor ainda cita mais dezesseis textos para continuar a falar do anticristo e, mais uma vez, repetindo uma prática comum dos articulistas anteriores, 2 Ts 2:1-3 parece não servir como fundamento quando o assunto é Segunda Vinda de Cristo pré ou pós-tribulacionista.
Um outro texto que observei foi um estudo doutrinário sobre o arrebatamento que a Bíblia de Estudo Pentecostal oferece. O título do estudo é “O Arrebatamento da Igreja” (p.1849). São citadas, aproximadamente, vinte e nove referências para falar do assunto, mas a cristalina passagem sobre o arrebatamento, 2Ts 2:1-3 não é citada. Qual é o segredo ou interesse dessa insistente omissão?
Em um outro estudo da BEP, “A Grande Tribulação” (p. 1438-1439), temos aproximadamente cinqüenta e duas citações bíblicas, mas, de novo, ficamos sem o registro de 2 Ts 2:1-3.
Bom, eu disse no primeiro parágrafo desse texto, que eu tirei algumas conclusões sobre o porque do não uso de 2 Ts 2:1-3 por alguns mestres pré-tribulacionistas. São elas:
•2 Ts 2:1-3 é uma passagem clara e inequivocamente pós-tribulacionista.
•Ela sozinha é capaz de lançar dúvidas sobre toda a teia teológica pré-tribulacionista.
•Ela existe para esclarecer o que fora dito em 1 Ts 4:15-17 sobre o arrebatamento. Desta maneira, toda interpretação do texto de 1 Ts 4:15-17 precisa passar pelo crivo elucidativo de 2 Ts 2:1-3, e este, é, como já afirmei, invariavelmente, pós-tribulacionista.
•Ninguém pode brigar com a objetividade do texto: “Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa mente… Ninguém de nenhum modo vos engane, porque isto (“a nossa reunião com ele”, o arrebatamento da Igreja) não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniqüidade”.
•Alguns, eu acredito, não usam tal texto para caírem na tentação de forçarem a compreensão da palavra apostasia[2] nesse contexto como fazem alguns que querem empurrar garganta abaixo a idéia de que esta palavra quer indicar a saída do Espírito Santo da terra junto com a Igreja no arrebatamento (v 6-7).Notas e Referências Bibliográficas:
THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Batista Regular, 2000.
PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida.
HORTON, Stanley M. (org.). Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1996.
Bíblia de Estudo Pentecostal. Publicada pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus.
RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon.Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1995.
CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo. São Paulo: Millenium, vol. 5, 1985.[1] Eu fiz a contagem das referências citadas em cada material analisado, mas, eu prefiro aqui, dizer que os números são aproximados porque acredito que em um momento ou outro é possível que algum deslize na contagem eu tenha cometido. Uma outra coisa a dizer é que uma mesma referência citada mais adiante, pode ter sido contada novamente. Finalmente, é necessário que se diga, quanto ao texto de 2 Tessalonicenses 2:1-3, que não houve nenhum descuido, nenhum deslize quanto a constatação da presença ou não do mesmo nos textos estudado.
[2] “…isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia”
(v 3).
Rienecker e Rogers (p. 450) dá os seguintes significados à palavra “apostasia”: queda, caída, rebelião, revolta, apostativa. Champlin (p. 241) diz: “Tal palavra pode significar rebelião, abandono”.
E ele continua: “O uso de tal vocábulo grego, para indicar o ‘arrebatamento da igreja’, é algo totalmente sem precedentes. Forçar tal sentido a esse termo grego é algo que resultou do desejo de alguns em distorcer esta passagem, que evidentemente contradiz a teoria pré-tribulacional, para fazê-la dizer o contrário”.