Concepções de Linguagem e Ensino de Português
GERALDI, J. W. Concepções de linguagem e ensino de português. In: GERALDI, J. W. (org.). O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 1997.
Comentário
Por Zwinglio Rodrigues
Geraldi diz que quanto à “crise do sistema educacional brasileiro”, a notável deficiência dos estudantes em relação ao desempenho lingüístico em sua dual manifestação – modalidade oral e modalidade escrita – ocupa uma posição destacável. O autor afirma: “Não falta quem diga que a juventude de hoje não consegue expressar seu pensamento… que há incapacidade generalizada de articular um juízo e estruturar lingüisticamente uma sentença” (p. 39). Para ele, esta realidade pode ser atestada, por exemplo, quando são analisadas as redações dos vestibulandos.
Como um fator decisivo para o não desenvolvimento do uso da língua, ele destaca a seguinte tríade: a democratização da escola, os baixos salários dos professores e o sistema administrativo. Dentre esses, destaco a problemática da democratização da escola que, em seu bojo, inseriu na vida das instituições de ensino uma clientela com marcantes diferenças dialetais. Devido a essa pseudo-democratização, “de repente, não damos aula só para aqueles que pertencem a nosso grupo social. Representantes de outros grupos estão sentados nos bancos escolares. E eles falam diferente” (p.43).
Somando-se à tríade mencionada acima, Geraldi aponta como outro fator que contribui para o fracasso escolar no que diz respeito ao uso da língua portuguesa, o menosprezo das outras maneiras de falar que não se articulam a partir do que determina a dita norma padrão-culta. Para ele, é importante que o professor dê a oportunidade aos alunos de aprenderem e dominarem uma outra forma de falar – no caso, o dialeto padrão – sem indicar qualquer tipo de menosprezo, depreciação à maneira de falar pertencente a eles, suas famílias e seus grupos sociais. Por detrás desta proposta, digna do pensamento freiriano, está a intenção de se romper com opressão social. Geraldi diz que “é preciso romper com o bloqueio de acesso ao poder, e a linguagem é um de seus caminhos. Se ela serve para bloquear – e disso ninguém dúvida –, também serve para romper o bloqueio” (p. 44).
Ainda quanto à ação docente em sala de aula, o autor reflete sobre o quanto a língua se constitui em um mecanismo de interação. Para ele, o professor precisa conscientizar-se desta possibilidade interativa que a língua oferece e, a partir disso, primar por uma opção no que diz respeito aos conteúdos e metodologias que dêem ao professor totais condições de ser bem sucedidos no processo ensino-aprendizagem. Só que, infelizmente, este sucesso tem sido impedido de concretizar-se por causa da insistência docente – muito mais por causa da própria prática escolar em si, do que por causa do professor – em dar ênfase às atividades de descrição gramatical e estudos de normas, regras, preceitos a se seguir. Desta prática, constitui-se e evidencia-se como prática docente o que Geraldi chama de ensino da metalinguagem. Esta prática impede um trabalho mais intensivo com a linguagem.
O autor sugere que “para o ensino do primeiro grau (a partir da nova LDB, 1996, denominado como anos iniciais do ensino fundamental), as atividades devem girar em torno do ensino da língua e apenas subsidiariamente se deverá apelar para a metalinguagem, quando a descrição da língua se impõe como meio para alcançar o objetivo final de domínio da língua, em sua variedade padrão” (p. 46).
O oposto disso indica que o professor acaba por distanciar-se da realidade lingüística dos discentes, mecanizando e artificializando, assim, o seu trabalho docente que, no final, se caracterizará por não produzir os efeitos necessários. Atividades de leitura e produções de textos, por exemplo, são conditio sine qua non para fazer prevalecer sobre o ensino da metalinguagem o ensino da língua. É nesta direção que o professor deve seguir.
Por fim, deve-se dizer que o texto de Geraldi é bem atual, bem escrito e altamente recomendável aos pedagogos, professores e demais sujeitos que militam no campo educacional. Eu recomendo.
Paz Zwinglio,
Gostaria de saber se a democratização do ensino citada por você no comentário, se refere a inclusão de pessoas com deficiências mentais, já que deficiências físicas não afetam o intelecto, em salas de aula com pessoas “normais”, Ou se o entrave diz respeito a diferenças sociais entre alunos.
Também gostaria de saber sua opinião acerca desse sistema que “empurra” os alunos que não atingiram a média escolar mínima para a proxima série? Isso funciona ou é simplesmente para o governo ter estatisticas de que a educação está melhorando, mas na verdade é um engôdo.
Outro ponto. Você, como professor, acredita que apenas um bom salário para os professores melhoraria o ensino público, ou seria necessário os governos investirem também em capacitação, como por exemplo, licenças remuneradas para pós-graduações, mestrados e doutorados subsidiados pelo ministério/secretarias de educação do nosso país?
Mais um: Você não acha que muitas das dificuldades linguisticas se devem ao pouco incentivo a leitura por parte do ensino público, bem como aos altos preços de livros em nosso país? Sabemos que é um martirio inclusive para muitos universitários a leitura de livros, no Brasil leitura não é algo prazeroso mas obrigatório.
Em Cristo,
Ednaldo.
Ednaldo, paz!
Todas as suas perguntas são inteligentes e importantes.
Elas, na verdade, estão interligadas.
Vamos tentar respondê-las:
1-Sobre Democratização do Ensino, o que se quer dizer com isso é que tudo deve ser feito para se observa o que já está contemplado na Constituição Federal nos seus Artigos 205, 206 e 208: “todos têm o direito a educação”. Quanto a isso, a Democratização do Ensino é um passo legítimo e essencial. Mas, infelizmente, por detrás de todos os esforços para facultar o acesso a todos ao ensino, está o espectro da ideologia neo-liberal. Veja o texto comentado por mim de Pato em http://dokimos.wordpress.com/category/democratizacao-do-ensino/
2-O “ideal” é um procedimento chamado de “Progressão Continuada”. O que é isso?
É um procedimento – legitimado pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) Seção III, Art. 32, Inciso IV – que a instituição educacional usa para permitir aos discentes o avanço constante sem interrupções…
Algumas características:
* É privilegiado quanto à questão do ato avaliativo porque uma avaliação processual e constante;
* Ele pode possibilitar uma frada ao elevado número de evasão escolar e de reprovação dos discentes;
* Ele compreende que o ato de reprovar o aluno não é a solução para um melhor desempenho estudantil dos alunos.
* O avanço nas séries não se dá sem uma avaliação constante. E não pára por aqui a proposta de avaliação. No final de cada ciclo, novamente o aluno é avaliado. Em outras palavras, há uma proposta de rigor avaliativo;
Agora, o grande problema da “Progressão Continuada” é a “Aprovação Automática” (isso tem que desaparecer, na minha opinião), sem critérios, sem uma avaliação adequada, ou sem uma importância devida e necessária para com o processo ensino-aprendizagem. É aqui que temos um grave problema. É aqui que encontra-se o cerne da sua crítica.
São muitas as razões para que as coisas sejam assim. Entre elas, está a questão dos salários dos professores (você fez menção a isso na pergunta três), a questão estrutural (espaço escolar, biblioteca…), etc.
3-Falando da educação básica, em si, não somente é fundamental melhores condições salariais aos docentes para que as coisas melhorem no ensino público, mas as questões estruturais, valorização do magistério, a redução da jornada trabalhistas do docente (este ponto é extremamente relevante), etc. Políticas públicas sérias são fundamentais…
4-Quanto a questão das dificuldades lingüísticas, o texto de Geraldi, que comentei, aponta: democratização da escola, os baixos salários dos professores e o sistema administrativo como os entraves ao desenvolvimento do uso da língua. O texto, penso eu, esclarece bem o que o autor quer dizer.
Acho que é isso Ednaldo.
Abraços!!!
Professor,
Quando alguém me pergunta sobre: “Concepções de linguagem e suas implicações nas práticas de ensino-aprendizagem da língua portuguesa”, o que ela quer saber exatamente, isto é, de de que forma objetiva eu posso fazer uma explanação sobre essa questão?
Obrigada
Ana
Ana, paz!!
Se eu entendi bem sua pergunta, penso que a resposta da mesma você pode encontrar no terceiro e quarto parágrafo do comentário escrito acima.
Abraços!!