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Urich Zwinglio, o Reformador Suiço

Urich Zwinglio (1484-1531), foi o líder da primeira reforma protestante na Suiça. É nele que a tradição Reformada encontra o seu primeiro teólogo. Zwinglio foi um estudioso que frequentou as universidades de Viena (1498-1502) e da Basiléia (1502-1506). Seu programa de reforma, iniciado em Zurique (1519), é marcado pelo moralismo humanista suiço, do qual desvinculou-se em torno de 1523 a 1525. No ano de 1519, Zwinglio assumiu o ministério pastoral em Zurique, tendo como plataforma de pregação, o púlpito de Grössmunster. McGrath diz que “Zwinglio foi extremamente importante para a pregação inicial da Reforma, especialmente na região leste da Suiça.” (p. 185, 2007).

 

Zwinglio fora um grande patriota e um homem intensamente preocupado com as questões intelectuais. Seu patriotismo aflorou por causa do serviço mercenário que era uma prática comum e essencial para a renda de diversas cidades suiças. Devido a seu envolvimento com questões patrióticas, as incursões reformistas de Zwinglio sempre tiveram conotações políticas e nacionalistas. Uma grande prova de seu patriotismo foi a sua morte na batalha de Kappel (1531).

 

Quanto à dedicação intelectual, Zwinglio, como anteriormente falamos, estudou nas Universidades de Viena e da Basiléia, instituições de destaque na Europa. Ele foi bastante influenciado pelo humanismo de Erasmo de Roterdã (1469-1536), mas, devido à sua veia política e seu envolvimento com o militarismo, ele acabou por abandonar a influência pacifista do humanismo do erudito holandês. Isso não significa que ele abandonara para sempre sua admiração por Erasmo e que ele desprezara as obras e os métodos investigativos do estudioso.

 

 A Bíblia

 

Zwinglio entendia que a descoberta da mensagem da Bíblia era o meio pelo qual poder-se-ia descobrir a real natureza do Cristianismo. Para ele, a Bíblia é inspirada e impossível de ser compreendida sem o auxílio divino. Estudá-la, para ele, deveria diferenciar-se dos estudos de qualquer literatura por parte de um humanista. Em relação a sua hermenêutica, Gonzales (p. 74, 2004) diz que “ele aplica à interpretação da Escritura os princípios que aprendera dos seus estudos humanistas e, portanto, sua exegese tende a ser menos alegórica do que se tornara usual.”

 

Para ele, “Palavra de Deus” não é apenas a Bíblia, mas, igualmente, a “ação criativa de Deus” (idem). Era também crença de Zwinglio que o conhecimento de Deus quanto a Sua existência não era alcançado apenas por meio da Bíblia, mas igualmente pela razão humana. Porém, quanto ao conhecimento do que Deus é, o verdadeiro conhecimento só pode ser alcançado pela revelação divina na Bíblia.

 

McGrath citando Zwinglio, mostra-nos o grande apreço desse reformador pela Bíblia: “o fundamento de nossa fé é a palavra escrita, as Escrituras de Deus.” (p. 196, 2007).

 

A Predestinação

 

Para Zwinglio, tanto a queda dos anjos, como a queda de Adão e Eva foram episódios ordenados por Deus. De acordo com Gonzales, Zwinglio compreendia que o propósito de Deus com esse plano era o de oferecer-nos a posibilidade de compreendermos a natureza da justiça a partir do seu contraste com o elemento antagônico chamado de injustiça. “Deus operou ambas estas coisas… Entretanto, ele não é injusto, nem o que ele fez é injustiça no que lhe diz respeito, pois ele não está debaixo da lei” (Gonzales citando Zwinglio, p. 77).

 

Sobre a salvação pelas obras, Zwinglio a negava veementemente com a sua doutrina da predestinação. Não há salvação pelas obras, e sim pela eleição divina. Esforços humanos não cooperam em nível algum para a salvação do homem. A respeito dos que nunca tiveram a oportunidade de ouvir a mensagem do Evangelho, Zwinglio acreditava que eles poderiam perfeitamente figurarem entre os eleitos visto serem os mesmos alvos de um julgamento divino numa base diferente.

 

Em relação a liberdade de escolha humana, Zwinglio dizia que os seus defensores não entendem a profundidade das consequências do pecado original.

 

Lei e Evangelho

 

O reformador suiço observava a lei a partir das seguintes variantes: a lei eterna de Deus, as leis cerimoniais e as leis civis. Dessas três, as duas últimas, para Zwinglio, tinham sido abolidas. Já a primeira, que expressa os mandamentos morais, era válida. Essa não poderia ser abolida porque ela exprimi a vontade eterna de Deus. No contexto neotestamentário, essa lei é condensada no mandamento do amor, algo que torna a lei e o evangelho, em essência, a mesma coisa, de acordo com a abordagem teológica zwingliana. A não contradição entre lei e evangelho é um marco que separa a compreensão de Zwinglio da de Lutero sobre esse assunto. Uma fala de Zwinglio referente a Lutero, registrada por Gonzales, retrata claramente a divergência de ambos quanto a Lei e o Evangelho. Ele teria dito:

 

Em nosso tempo, algumas pessoas de capital imortância falaram sem seriedade suficiente sobre a lei, segundo o entendimento delas, ao afirmarem que a lei é somente para aterrorizar, condenar e entregar aos tormentos. Na relaidade, a lei não faz isso em absoluto; ao contrário, estabelece o ponto de vista, a vontade e a natureza da Deidade. (p. 79).

 

A Igreja e o Estado

 

Encontra-se com frequência, no pensamento zwingliano a apresentação da Igreja e Estado como sendo um único corpo chamado “igreja” que possui duas funções: governo e ministério.

 

Na igreja de Cristo, o governo e a profecia são ambos necessários, embora a última tenha precedência. Pois assim como o homem é necessariamente constituído de corpo e alma, sendo o corpo a parte inferior e mais humilde, assim não pode haver igreja sem governo, embora o governo supervisione e controle aquelas circunstâncias mais mundanas, que são muito distantes das coisas do Espírito. (Gonzales citando Zwinglio, p. 82).

 

Os Sacramentos

 

Sobre os sacramentos, Gonzales transcreve o seguinte texto de Zwinglio:

 

Os sacramentos são, então, sinais ou cerimoniais… pelos quais um homem prova para a igreja que ele almeja ser ou é um soldado de Cristo, e que informam toda a igreja, antes que a si mesmo, de sua fé. Pois se sua fé é tão perfeita que não necessita de um sinal cerimonial para confirmá-la, ela não é fé… Pois fé é aquilo pelo qual nós confiamos na misericórdia de Deus de forma inabalável, firmemente e com um coração íntegro. (p. 83).

 

Essa posição zwingliana fora construída como uma alternativa às teorias luterana, católica e anabatista, a respeito das quais Zwinglio divergia radicalmente. Para o reformador suiço, os sacramentos eram apenas dois: o batismo e a Ceia do Senhor. Em seu entendimento sobre os sacramentos, Zwinglio não admite a purificação dos pecados por meio do batismo; compreensão essa que em nada interfere em sua tese de que as crianças podem ser batizadas.

 

Em relação a Ceia do Senhor, Zwinglio desenvolveu, furiosamente, um amplo debate com Lutero sobre se Cristo estava ou não presente na eucaristia. Para ele, a eucaristia é um memorial do sofrimento de Jesus Cristo e que nada tem haver com um sacrifíco. Em sua teoria, Zwinglio afirmava que a expressão “isto é o meu corpo” não deveria ser admitida literalmente.

 

Se as palavras de Cristo em Mateus 26, “isto é o meu corpo” também podem se entendidas metaforicamente ou in tropice. Já ficou claro o suficiente que neste contexto a palavra “é” não pode ser entendida literalmente. Segue-se, portanto, que deve ser entendida metafórica ou figurativamente. Nas palavras “isto é o meu corpo”, o termo “isto” se refere ao pão e o termo “corpo”, ao corpo que foi morto por nós. Logo, a palavra “é” não pode ser entendida literalmente, pois o pão não é o corpo. (McGrath citando Zwinglio, p. 218).

 

McGrath (p. 217) apresenta a seguinte analogia para explicar o ponto de vista zwingliano que não aceita em hipótese alguma a “presença real de Cristo” na eucaristia:

 

Assim como um homem, ao partir numa longa viagem, pode deixar um anel com a sua esposa para que ela se lembre dele, também Cristo deixa para sua igreja uma recordação para que ela se lembre dele até o dia em ele voltar em glória.

 

Finalmente, na opinião de Gonzales, é justo afirmar que a influência de Zwinglio e da reforma suiça foi, no mínimo, tão importante quanto a de Lutero.

 

Por Zwinglio Rodrigues

 

 

Referências Bibliográficas:

 

GONZALES, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, vol. 3, 2004.

 

McGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Iintrodução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 

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