A Hermenêutica de Schleiermacher
Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768-1834), teólogo alemão protestante e filólogo clássico, pietista místico, foi filho de um capelão reformado do exército. Enviado à uma escola moraviana, Schleiermacher acabou por ser marcado em seu interior por um discernimento agudo sobre o pecado que o levou a uma compreensão não menos profunda da necessidade e disponibilidade da graça. No seminário, ele decepcionou-se com as conclusões ortodoxas que contrapunham-se ao ceticismo religioso de seu tempo, fato que o levou a abandonar a crença na divindade de Jeus Cristo e na expiação por Seu sangue. Estudando na Universidade de Halle e sob a influência dos pensamentos filosóficos kantianos, ele estrutura o seu pensamento sobre a fé cristã.
No ano de 1794, Schleiermacher é ordenado ao ministério pastoral. Ele pastoreu a Igreja Reformada da Alemanha e foi um dos fundadores da Universidade de Berlim, lugar onde atuou como docente de teologia. No período em que atuava como pastor, fora influenciado pelo Movimento Romântico. McGrath (p. 246) diz que o Romantismo é
…um movimento difícil de definir. Pode ser considerado uma reação a certos temas centrais do Iluminismo, principalmente à afirmação de que a realidade pode ser conhecida pela razão humana… Enquanto os iluministas apelaram para a razão humana, os românticos se valeram da imaginação humana que é capaz de reconhecer a sensação profunda de mistério que surge da percepção de que a mente humana não é capaz de compreender nem sequer o mundo finito, quanto mais o infinito além dele.
Em 1821 e 1822, ele publica a sua principal obra, A Fé Cristã, considerado o tratado teológico mais influente do século XIX conforme afirmam Gonzales (2004) e McGrath (2007).
1. A Hermenêutica
O método hermenêutico que Schleiermacher adotava era o histórico-crítico. “Essa abordagem metodológica nasceu no final do século 17, debaixo da influência do Iluminismo e do deísmo, desenvolveu-se durante os séculos 18 e 19, tendo o seu fim, historicamente, no século 20″ (Nicodemus, 2004, p. 189). Alguns teóricos tratam esse método como sendo um “filhote do Iluminismo”. Os eruditos liberais fazem o escrutínio das Escrituras Sagradas a partir desse método [principalmente os eruditos europeus]. A proposta do mesmo nos é esclarecida por Berkhof (p. 36):
A Bíblia devia ser interpretada como qualquer outro livro. O elemento divino da Bíblia foi, em geral, menosprezado, e o intérprete se limitava à discussão de questões históricas e críticas.
Essa método acaba por reduzir a Bíblia à um texto que não é a Palavra de Deus, mas um compêndio historiográfico da fé dos israelitas e da Igreja Primitiva.
Bom, para Schleiermacher,
a abordagem histórico-crítica ajudava a revelar a intenção dos autores bíblicos no contexto de sua época, mas questionava o que sua mensagem significava para os leitores e ouvintes numa época e cultura diferentes (Dockery, p. 155).
Schleiermacher argumentava que a práxis interpretativa devia dar-se a partir de duas categorias: a gramatical e a psicológica.
1.1 Uma Hermenêutica Gramatical
Essa primeira dimensão ocupa-se da análise gramatical e da linguagem do texto. Para Schleiermacher, um texto construído traz em si “uma série de regras e convenções de sua língua, epoca e cultura” (Nicodemus, p. 206). Ao interpretar tal texto, o intérprete deveria esforçar-se para compreendê-lo o máximo possível, seguindo a tal exercício, a apreensão de um entendimento mais apurado que o do próprio autor. Como? O intérprete, inserido, cultural e temporalmente, em um outro contexto, teria como vantagem sobre o escritor original, o fato de poder, de maneira consciente, buscar a compreensão das regras e convenções inconscientemente reproduzidas no texto. Esse pré-entendimento era uma condição essencial para que a interpretação se concretizasse. Em Schleiermacher, a intenção autoral é a chave para o entendimento. Porém, a abordagem gramatical e seu significado não era o bastante.
1.2 Uma Hermenêutica Psicológica
Schleiermacher defendia que a temática do texto de um autor era consequência de sua própria natureza. Por isso, o intérprete teria que esmerar-se por captar a individualidade do autor. A empatia seria esse mecanismo facilitador da captura da subjetividade autoral intrínseca ao texto. No dizer de Dockery (p. 156) “o entendimento… envolvia mais do que repensar o que um autor pensava; incluía experimentar novamente aquilo que, na vida do autor, gerou o pensamento.” A isso é que chamam de hermenêutica psicológica.
Schleiermacher admitia que um texto possui um sentido único intencionado pelo autor ao escrevê-lo e era esse sentido que o intérprete deveria buscar. Mas, ele, igualmente, defendia um número incontável de sentidos de um texto. Com essa perspectiva, franqueava-se o caminho para uma hermenêutica centralizada no intérprete e, portanto, marcadamente eisegética.
Finalmente, Schleiermacher é considerado o pai da hermenêutica moderna. Ele, Rudolf K. Bultmann (1884-1976), Karl Barth (1886-1968), Hans-Georg Gadamer (1900-2002), et alii, ajudaram a lançar os fundamentos para a hermenêutica pós-moderna. Foi Schleiermacher quem popularizou o liberalismo teológico. A continuidade do seu pensar hermenêutico ficou ao encargo de Wilhelm Dilthey (1833-1911), seu biógrafo.
Referências Bibliográficas:
ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.
BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã.
DOCKERY, David S. Hermenêutica Contemporânea à Luz da Igreja Primitiva. São Paulo: Vida, 2005.
GONZALEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão: Da Reforma Protestante ao Século 20. São Paulo: Cultura Cristã, vol. 3, 2004.
MCDOWELL, Josh. Evidência Que Exige um Veredito. São Paulo: Candeia, 1997.
MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
NICODEMUS, Augustus Lopes. A Bíblia e Seus Intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
Por Pr. Zwinglio Rodrigues

Gostei, Zwinglio!
Estou pretendento ler alguma coisa escrita por Schleiermacher, você já leu? Recomenda algum livro?
Vítor, paz!
Estou às portas de ler “Hermenêutica – Arte e Técnica da Interpretação” de Schleiermacher…. apenas estou esperando concluir algumas leituras já iniciadas… uma obra integral dele ainda não li… mas fragmentos de textos dele, o sobre ele, já li bastante…
Alguns títulos dele em português [que eu saiba]:
Sobre a Religião;
Hermenêutica – Arte e Técnica da Interpretação;
Hermenêutica e Crítica.
Um abraço!!
1. Meus parabéns por mais esse artigo esclarecedor. Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher, além de teólogo foi filólogo e filósofo (tudo com “f”). Ao lermos embevecido a obra, “Hermenêutica e Crítica” (Hermeneutik und Kritik, 1838 – mais tarde editada pelo grande filósofo alemão H. G. Gadamer com o título Hermeneutik ), editada no Brasil com o título “Hermenêutica: arte e técnica da interpretação” (4.ed., 2003: Editora Universitária São Francisco), temos a impressão de uma obra inacabada; de esboços que se destinavam a orientar a reflexão e o diálogo com o filósofo F.A. Wolf, e a debater criticamente os escritos hermenêuticos de Ast – personagens não muito conhecidos nos seminários evangélicos.
2. Insatisfeito com a posição hermenêutica desses dois filósofos (DISCURSOS ACADÊMICOS [1829]), Schleiermacher inicia, talvez, o primeiro tratado de hermenêutica geral, conhecida entre os alemães de allgemeine Hermeneutik. Contrasta os conceitos de Wolf com os de Ast (não necessariamente nesta ordem) e os descrevem criticamente. Em um dos momentos apiciosos do debate, Schleiermacher defende a hermenêutica bíblica como uma das principais disciplinas do “órganon da teologia”, assim como para Wolf e Ast a Hermenêutica, a Gramática e a Grítica são os “órganon das ciências da antigüidade”.
3. Na segunda exposição, HERMENÊUTICA, PRIMEIRO PROJETO DE 1809-1010, o filólogo discute a hermenêutica sagrada com ênfase na interpretação gramatical, definindo-a como “a arte de encontrar o sentido determinado, pela linguagem e com o auxílio da linguagem, de um determinado discurso” (p.70).
4. Na última seção, EXPOSIÇÃO SEPARADA DA SEGUNDA PARTE[ 1826-1827), Schleiermacher discute a “interpretação técnica” e seu paralelo com a interpretação gramatical. Em um dos exemplos, define um dos objetivos da interpretação gramatical como “compreender o discurso e a composição a partir da língua”, enquanto da técnica em “compreensão como exposição do pensamento. Composição pelo homem. Portanto, também a partir do homem” (p.93). Estabelece, por conseguinte, a relação mútua e indissociável entre a interpretação gramatical e a técnica.
5. Toda a obra expõe, como afirmado pelo prezado amigo, o procedimento gramatical e psicológico como elementos indispensáveis à interpretação. Contudo, devemos acrescentar o uso do “método histórico-comparativo” e o “intuitivo-divinatório”.
6. A obra de Schleiermacher é perpassada pelo idealismo e o realismo, o geral e o particular, o ideal e o real, e principalmente pelo relativismo promovido pela própria linguagem – “sem linguagem não se daria nenhum saber, e sem saber nenhuma linguagem”, dizia.
Mais uma vez, Pr. Zwínglio, meus parabéns. Esperamos que o seu artigo motive os blogueiros à leitura da Hermenêutica, bem como das outras obras de Schleiermacher editadas no Brasil. (Obs.: perdi aquele texto sobre a parousia em Tessalonicenses, o amigo poderia enviar mais uma vez.)
Um abraço
Esdras Bentho
http://www.teologiaegraca.blogspot.com
Pr. Bentho, paz!
Muito obrigado por essa contribuição tão enriquecedora e complementar que o irmão realizou por aqui…
Apenas fiquei com uma dúvida: os títulos “Hermenêutica e Crítica” e “Hermenêutica – Arte e Técnica da Interpretação” referem-se a um mesmo trabalho, inicialmente?
Quanto ao texto escatológico, vou enviá-lo agora para ti.
Abraços!!!
Kharis kai eirene
Desculpe a demora, mas estava tão ocupado que não foi possível responder imediatamente. Hermenêutica: Arte e Técnica da Interpretação é uma obra e Hermenêutica e Crítica é outra. Hermenêutica e Crítica, vl 1, 2005, 279 p. é publicado pela UNIJUÍ.
Um abraço
Gostaria de saber qual foi a principal contribuição para a humanidade atual de Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher?
Abraços
Pr Zínglio, graça e paz.
Qual foi a contribuição de Schleiermacher para a sistematização do estudo teológico?
Paz, pr. Marcos!!
Obrigado por ter visitado Dokimos…
Posso te dizer pelo menos uma ou duas coisas sobre a contribuição de Schleiermacher à teologia:
O Iluminismo questionou o papel distintivo de Jesus… diziam: tudo que Jesus ensinou, poderia ser descoberto pela razão…
A esse pensamento extremamente desafiador… Schleiermacher deu uma resposta à altura a tal questionamento… ele dizia que Jesus Cristo mediava a experiência da absoluta dependência de Deus por parte dos crentes…
Ele provocou debates interessantes para o pensar teológico… a questão da morte de Cristo como um ato de valor “religioso”… para ele, além da questão de uma morte apenas para produzir um sistema moral… Cristo veio para fazer com que a suprema consciência divina prevalecesse sobre as pessoas…
Bom… eu não sou nenhum especialista em Schleiermacher… mas o que digo no breve artigo… os comentários do Pr. Bentho… essas breves informações que acabo de dar-lhe… e mais uma leitura de obras como as que cito no artigo… podem lhe dar uma gama de informações que talvez lhe seja satisfatória…
Abraços!!!
Não sou um especialista,mas um aprendiz de pedagogia.Quero agradecer as informações encontradas.